A história de João e Maria.

Meu nome é Uiles Matos, tenho 58 anos e ao contrário do que o título possa ensejar, não remete à famosa estória infantil com mesmo nome. O texto abaixo pode ser mais uma história, mas é, na verdade, a maior questão da vida de alguém, a minha vida. Não passou um dia até hoje, sem que eu pensasse ou sentisse a falta do meu Pai que não conheci.

Minha intenção com essa publicação é, quem sabe, aparecer num resultado de busca para alguém, meu Pai ou quem possa estar envolvido na busca dessa verdade. Como a internet é tão poderosa no seu alcance, espero que você consiga ler toda a história e mais ainda, que possa ter alguma informação ou quem sabe, descobrir algo que possa ajudar nessa busca. Quisera ter recursos financeiros para poder contratar serviços profissionais e contar com todas as ferramentas possíveis, empreenderia uma verdadeira caçada, mas, infelizmente, não posso fazer isso.

Já tentei inúmeros programas de TV através de e-mail, mas, não sei qual o critério que eles usam para ajudar alguém. Por isso, só me resta você que está lendo isso agora. Importante: você não chegou aqui por acaso, toda a ajuda é muito bem-vinda e desde já, agradeço de coração a sua visita.

Minha Mãe, Maria de Jesus da Silva Matos, nasceu em 26/03/1944 na cidade de Itabuna/BA, veio menina para o interior de São Paulo, mais precisamente para a cidade de Votuporanga/SP no interior. Sua família viveu por fazendas e fazendas sempre trabalhando na lavoura. Maria, por ser uma das filhas mais bonitas, sempre trabalhou como empregada doméstica desde muito “mocinha”. Por sua ingenuidade, aos 15 anos, uma amiga que ela chamava por “Neguinha” a levou a uma festa numa casa de amigos e lá ela perdeu sua virgindade e ficou grávida de uma menina que foi natimorta. Logo em seguida, com 16 anos (1960) conheceu João Lucas Toledo (ela não se lembra bem do nome, mas do primeiro e ultimo nome ela tem certeza), engenheiro ou contramestre de passagem pela cidade. Estava construindo um Posto de Puericultura muito bonito. Ele estava sozinho e minha Mãe soube depois do relacionamento iniciado que ele era casado e separado. Tinha um filho deficiente com problema nas pernas que minha Mãe não soube explicar o que era. Com nove meses de namoro com meu Pai, engravidou de gêmeos, um aborto natural de uma gravidez que só durou três meses. Outros três meses depois, novamente, engravidou de mim e eu nasci em 03/08/1962 às 20hs numa maternidade de Bebedouro/SP porque na cidade de Colina não havia ainda maternidade.
Segundo minha Mãe, João chegou a me conhecer, me pegar no colo e como era seu estilo, com os olhos fixos em mim em silêncio, me erguia no alto e dizia palavras próprias de um Pai ainda que por curtos momentos, umas duas ou três vezes.

A construção do Posto de Puericultura chegou ao seu término e João foi chamado para construir uma Cadeia Pública em Santos/SP no bairro Macucu, ele chamou minha Mãe, mas, ela não quis ir, ficou com medo. Um mês após sua ida, conforme prometido, ele veio nos buscar. Por acaso, neste dia, minha Mãe e eu não estávamos. Minha Tia Joacy inventou que ela estava trabalhando em um bar “mal falado” da região, na tentativa de que ele ficasse furioso e desistisse dela. Ele foi até o tal bar e segundo consta, quebrou o bar inteiro por ter pedido o paradeiro de minha Mãe e o dono do bar, que não tinha nada com isso, não forneceu. Deixou o recado que voltaria um mês depois. Dois meses depois, ele mandou um motorista buscar minha Mãe e eu. Era um grande e luxuoso carro preto que ao estacionar na fazenda onde a família de minha Mãe estava morando, causou surpresa em todos. Minha vó dizia que João era muito bonito, marinheiro de “cada porto um amor” e deixaria minha Mãe na primeira chance. Minha vó me pegou nos braços, se embrenhou nos cafezais e disse: “Se você for, vai sozinha, o menino fica!”. Para completar o cenário, João mandou um discurso por intermédio de seu motorista que minha Mãe não gostou, João disse: Nós iríamos para Santos, enquanto minha Mãe trabalhava, eu ficaria numa creche e ela não aceitou o fato de eu ficar numa creche. Desde então nunca mais vimos meu Pai.

Era Outubro de 1962. Em 1963, minha Mãe se casa com Antonio Aguiar Nascimento, seu primo (hoje falecido), segundo ela, um casamento forçado como pretexto pra sair do interior e vir para São Paulo/Capital onde teve mais três filhos com Antonio: Neusa, Antonio Jr. e Wilson. Se separaram através de desquite em 1971 e por conta dessa separação, sem condições, sem ter onde morar, eu e Antonio Jr. fomos para um colégio interno na cidade de Catanduva/S, o Lar Escola Anita Costa que pertencia ao Rotary Club da cidade. Ficamos lá por 5 longos e sofridos anos, passamos por muitos apuros, mas, no balanço geral, foi uma infância agitada, com muitas aventuras, trabalho, sofrimentos desnecessários e também uma parte bonita que foi conhecer a realidade de tantas outras crianças que foram para lá por inúmeros motivos e muitos, piores que o nosso. Já Wilson e Neusa foram para casas de parentes que, às vezes, era até pior que o colégio interno que ficamos. Minha Mãe ficou morando em pensões, trabalhando como cobradora de ônibus para sobreviver, além de lidar com todo o preconceito e abandono da nossa família que a classificavam de nomes feios e o mais gentil deles era “prostituta”. Por sua beleza, por ter se separado e por ter seus quatro filhos longe dela, nossa família, segundo minha Mãe, só atacavam.
Em 1977 nos reunimos novamente morando numa pensão no centro de São Paulo, outro episódio terrível de nossas vidas. Vivemos um tempo lá e tivemos muitas andanças e trabalho até conseguirmos viver um pouco melhor. Passamos por muitos outros endereços, sempre com dificuldades e minha Mãe desenvolveu a habilidade de atender pessoas em casa com uma suposta vidência que lhe dava poderes para ler a vida das pessoas por um copo de água. Com isso, conseguimos ter um padrão de vida melhor porque as pessoas ajudavam de maneira espontânea. Depois de um tempo, começou a se enveredar pela umbanda, fazendo “trabalhos”, etc. Nunca gostei disso, mas ela gostava.

Em 1996, saí de casa para viver com minha esposa Cristiane, hoje tenho três filhos: o David de 24 anos, Erick de 16 anos e Mateus de 14 anos - meus amores com quem faço questão de tentar a cada dia ser o melhor Pai do mundo, não porque não tive o meu, mas, porque os filhos são presentes de Deus e minha obrigação como Pai é fazer deles pessoas de cabeça boa, felizes e que tornem este mundo melhor. O amor que sinto por eles e o que eles sentem por mim é uma coisa tão imensa que não consigo enxergar minha vida sem eles, sem acompanhá-los e tê-los como meus amigos. Sou muito grato a Deus por isso.

Minha Mãe morreu em 15/06/2003 com 59 anos, deixou muitas saudades e não esclareceu muito bem toda essa história - ela sempre era evasiva quando se falava nisso – o que me leva a crer que ela escondia alguma coisa e que toda minha família compartilha desse maldito segredo. Sempre me pareceu que ela deveria ter um grande motivo para me esconder do meu Pai e minha família toda também deve ter parte nisso porque ninguém abre nada ou conversa sobre isso - parece que todos "enrolam" quando tento falar disso.

Em 1960, João Lucas Toledo, meu Pai(também não sei se esse é o nome real porque minha Mão misteriosamente disse que tinha um outro sobrenome no nome dele, mas que ela não lembrava), com seus 35 anos, engenheiro civil ou contramestre, não sei ao certo, natural de Barretos/SP e toda sua família. Segundo minha Mãe, a família de João era rica, mas, o ramo do meu Pai, ou seja, meu avô, renunciou à riqueza da família por um amor proibido (uma mulher de família pobre – minha avó) conseguindo com isso ser o único ramo da família que não era rico. A família Toledo era muito respeitada em Barretos/Bebedouro e Colina. Na época havia um deputado famoso em São Paulo, parente de João: Ricardo Dias Toledo. Na época do envolvimento com minha Mãe, meu Pai era casado, desquitado havia 3 anos, tinha um filho desse matrimônio que pelo que consta, tinha uma deficiência física nas pernas que não soube identificar.

Zéfinha, ex-mulher de João, era filha de um Sr. Silva e Dona Laura. Essa família vivia numa fazenda chamada Palmares – localizada no caminho do trem que vai de Colina para Barretos. Quando casados, João e Zéfinha moravam em Barretos. João era muito recatado, falava pouco e quando precisava agir era muito explosivo. Tocava piano e quando em paz, parecia ser muito sensível e romântico segundo minha Mãe. Já pensei em procurar na prefeitura o nome do responsável por alguma obra que ele já participou, mas, é preciso tempo e dinheiro... Essas são as informações que tenho dele, não posso assegurar se são verdadeiras, mas, foi o que consegui conversando com todos parentes que pude - os meus parentes também são evasivos e dão impressão de esconderem algo de mim também, assim como mina Mãe fazia. O que tenho certeza é desse vazio, uma peça que falta. Isso faz com que mesmo que tudo esteja bem, aquela tristeza lá no fundo persiste como uma tristeza disfarçada de superação, sublimação.

Não quero nada material, quero apenas conhecê-lo. Não me importam os motivos que nos separaram (sei, posso descobrir que ele simplesmente não quis ou que talvez tenha se magoado com minha Mãe e resolveu também não me ver mais) quero apenas preencher uma peça que falta no quebra-cabeça da minha vida e talvez quem sabe, tenha mais alguém para amar e apresentar para os meus filhos o Avô deles - eles iam adorar com certeza. Ele também ficaria orgulhoso.

Nestes tempos de pandemia, oro a Deus para que o proteja e o guarde com saúde. Ele já deve estar bem velhinho, se estiver vivo.

Se você puder me ajudar nessa busca, desde já, agradeço. Só pelo fato de você ter lido esse "jornal", já está energizando positivamente minha busca.

Agradeço seu tempo.

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