A história de João e Maria - a busca por meu Pai.

Atualizado em 18 de novembro de 2025.

Essa é uma parte da minha história, de alguém que buscava e hoje não tem mais esperança de encontrar e conhecer seu pai. Existem verdades que não foram contadas por minha mãe e meus parentes. Verdades que foram modificadas pelo curso da moral, do puritanismo da época e dos bons costumes de minha família. Vergonha, época, localidade, costumes da sociedade... mas, enfim, conversei com alguns parentes mais verdadeiros e reuni as informações desses quebra-cabeças.

A procura é pelo meu pai, mas não tenho nenhuma foto dele. Infelizmente, minha mãe sumiu com todas quando comecei a questioná-la por volta dos meus 16 anos. Espero que a imagem dela faça alguém da cidade de Colina/SP se lembrar da época e me ajudar a encontrar meu pai.

Meu nome é Uiles Matos, tenho 63 anos e, ao contrário do que o título possa ensejar, este post não remete à famosa estória infantil de conto de fadas com o mesmo nome. O texto abaixo pode ser mais uma história, mas é, na verdade, a maior questão da vida de alguém: a minha vida. Não passou um dia, até hoje, sem que eu pensasse ou sentisse a falta do meu pai que não conheci. Um vazio que não se preenche.

Minha intenção com esta publicação é, quem sabe, aparecer num resultado de busca para alguém – meu pai ou quem possa estar envolvido na busca dessa verdade. Como a internet é tão poderosa em seu alcance, espero que você consiga ler toda a história e, mais ainda, que possa ter alguma informação ou, quem sabe, descobrir algo que possa ajudar nessa busca. Quisera ter recursos financeiros para poder contratar serviços profissionais e contar com todas as ferramentas possíveis; empreenderia uma verdadeira caçada. Mas, infelizmente, não tenho como fazer isso. Já tentei inúmeros programas de TV através de e-mail, mas não sei qual o critério que eles usam para ajudar alguém. Nunca fui chamado. Por isso, só me resta você que está lendo isso agora.

Importante: você não chegou aqui por acaso. Toda ajuda é muito bem-vinda e, desde já, agradeço de coração a sua visita e seu tempo.

Vamos lá: Minha mãe, Maria de Jesus Matos, nasceu em 26/03/1944 na cidade de Itabuna/BA. Veio menina para o interior de São Paulo, mais precisamente para a cidade de Votuporanga, depois para se fixar em Colina/SP. Sua família viveu por fazendas e fazendas, sempre trabalhando na lavoura. Maria era uma das filhas mais bonitas e, assim como suas irmãs, sempre trabalhou como empregada doméstica desde muito cedo.

Sei que ela trabalhou para uma família muito tradicional de Colina, a família "Paro" (o nome não sei ao certo, mas me parece que era Emar Paro o seu patrão). Trabalhou para uma família de japoneses, sobre os quais não tenho nenhuma informação. Trabalhou para muitas famílias e, infelizmente, não parava muito nos empregos.

Com 17 anos (1961), conheceu João Lucas Toledo (ela não se lembrava muito bem do nome inteiro ao certo, mas do primeiro e último nome ela tem certeza de que era esse mesmo). Ele era possivelmente um engenheiro, contramestre ou encarregado que trabalhava na construção de um posto de puericultura na cidade de Colina/SP, similar aos atuais Postos de Saúde ou UBS, que estava sendo construído na época.

Ele estava solteiro, e minha mãe soube, depois do relacionamento iniciado, que ele era casado e já estava separado. Tinha um filho deficiente com problema em uma das pernas, que minha mãe não soube explicar o que era. Ele disse que o nome da ex-esposa era Zéfinha e que eles moravam na Fazenda Palmares juntamente com os pais, Sr. Silva e Dona Laura Silva. Essa fazenda, localizada no caminho do trem que vai de Colina para Barretos. Quando casados, João e Zéfinha moravam em Barretos.

Em novembro de 1961, minha mãe engravidou de mim, e eu nasci em 03/08/1962 às 20h numa maternidade em Bebedouro/SP. Porque na cidade de Colina não tinha ou não estava disponível a maternidade, as mães iam até Bebedouro, davam à luz, e as crianças eram registradas como nascidas em Colina. Efetivamente, nasci em Bebedouro, mas meus documentos marcam como nascido em Colina/SP.

Segundo minha mãe, meu pai chegou a me conhecer (detalhes que minhas tias não se recordam), me pegou no colo e, como era seu estilo, muito sério (na verdade, muito tímido). Ainda que por curtos momentos, umas duas ou três vezes isso aconteceu, segundo minha mãe. A construção do Posto de Puericultura chegou ao seu término, e João foi chamado para construir uma Cadeia Pública em Santos/SP, no bairro Macucu. Ele chamou minha mãe, mas ela não quis ir, ficou com medo porque, segundo ela, ele iria me pôr num Colégio Interno, e ela não queria isso.

Uma de minhas tias me garantiu que a mãe do meu pai não gostava do comportamento de minha mãe, notório em toda a cidade por causa do seu estilo extrovertido – isso era um grande impedimento para que eles ficassem juntos, presumo. Um mês após sua ida, conforme prometido, ele veio nos buscar na fazenda em que minha família trabalhava. Por acaso, neste dia, minha mãe e eu não estávamos (segundo minha mãe).

João Lucas Toledo é o nome do meu pai. Reitero que não tenho certeza se esse é o nome real inteiro, porque minha mãe, misteriosamente, disse que tinha um outro sobrenome no meio do nome dele, entre o "Lucas" e o "Toledo", mas que ela não lembrava. Com seus 28 a 30 anos (não sei ao certo sua idade na época), natural de Barretos/SP, assim como toda sua família. Segundo minha mãe, a família de João era grande e respeitada na cidade, e havia um ramo da família de sobrenome “Dias”.

Na época, havia um deputado famoso em São Paulo, parente de João: Ricardo Dias Toledo. Não sei se tinha o "Toledo" também.

Penso que, na verdade, pode ser que sempre quiseram me proteger da vergonha. Depois que crescemos, deve ter batido remorso em todos. Após, minha mãe passou a ter condições financeiras melhores e, como dinheiro é poder e respeito, durou pouco porque suas finanças sempre foram prejudicadas por homens que se aproximavam (muito mais jovens) para arrancar dinheiro dela. E, depois de sua morte, penso que não quiseram denegrir sua imagem, visto que minha mãe sempre teve comportamentos que não seguiam os padrões considerados e aprovados por todos. Talvez por julgarem que “era besteira procurar”, “que não valia a pena”, “que poderia trazer mais sofrimento” e tantas outras coisas até, em alguns casos, para não ter mais segredos revelados, vai saber...

O que tenho de certeza é esse vazio, uma peça que falta – não há um dia em que eu não pense nisso na minha vida. Receio que ele já tenha morrido... isso faz com que, mesmo que tudo esteja bem, aquela tristeza lá no fundo persiste como uma tristeza disfarçada de superação, sublimação. Sua idade hoje beiraria os 90.

Em 1963, meu avô, pai da minha mãe, morreu. Ela, então, se casa com Antônio Aguiar Nascimento, seu primo (hoje falecido). Um casamento (segundo minha mãe) com interesse de sair do interior e vir para São Paulo/Capital, onde teve mais três filhos com ele, meus irmãos: Neusa, Antônio Jr. e Wilson.

Separaram-se através de desquite homologado em 1971 e, por conta dessa separação, sem condições, sem ter onde morar, eu e Antônio Jr. fomos para um colégio interno na cidade de Catanduva/SP, o "Lar Escola Anita Costa", que era mantido pelo Rotary Club da cidade. Ficamos lá por cinco longos e sofridos anos. Passamos por muitos apuros, mas, no balanço geral, foi uma infância agitada, com muitas aventuras, trabalho, sofrimentos desnecessários e uma parte bonita que foi conhecer a realidade de tantas outras crianças que foram para lá por inúmeros motivos, muitos piores que o nosso.

Meus outros dois irmãos, Wilson e Neusa, foram para casas de parentes.

Minha mãe ficou morando em pensões, trabalhando como cobradora de ônibus para sobreviver. Por sua beleza, conduta e comportamento condenáveis, por ter se separado e por ter seus quatro filhos longe dela, ela não era exemplo para ninguém. Nossa família era e é do bem, meus avós eram pessoas honestas e não gostavam de coisas erradas. Com isso, o que vi quando saí do colégio interno eram ataques o tempo todo contra minha mãe e, de quebra, contra nós porque, segundo alguns, “seríamos iguais à nossa mãe”. Em nossas cabeças, eu e meus irmãos, impotentes, só recebíamos os xingamentos, os comentários, as gozações e maus-tratos de todos.

Hoje entendo por que minha família toda era tão revoltada com minha mãe. Ela era uma mulher que buscava seu prazer e não se prendia a nada que a sociedade tinha como bom e correto, sendo muitas vezes ingênua e muito influenciável. Ou seja, adorava namorar, sair para dançar, fumar, beber, noitadas, se vestir de maneira até vulgar porque era bonita e gostava mesmo de chamar atenção masculina. Não concordo com o comportamento da minha mãe, mesmo tendo passado o tempo, ela fez muita gente sofrer por isso.

Em 1977, nos reunimos novamente morando numa pensão horrível no centro de São Paulo, outro episódio terrível de nossas vidas. Vivemos um tempo lá e tivemos muitas andanças e trabalho até conseguirmos viver um pouco melhor. Passamos por muitos outros endereços, sempre com dificuldades, e minha mãe desenvolveu a habilidade de atender pessoas em casa utilizando a vidência e umbanda, combinadas com supostos poderes para ler a vida das pessoas por um copo de água.

Com isso, conseguimos ter um padrão de vida melhor porque as pessoas ajudavam de maneira espontânea. Depois de um tempo, começou a se enveredar pela umbanda, fazendo “trabalhos”, etc. Nunca gostei disso, mas ela gostava e fazia.

Em 1996, saí de casa para viver com minha esposa Cristiane, juntos até hoje. Tenho três filhos: David, de 29 anos, Erick, de 20 anos, e Mateus, de 18 anos – meus amores com quem faço questão de tentar a cada dia ser o melhor pai, não porque não tive o meu pai, mas porque os filhos são presentes que recebemos do universo, e minha obrigação como pai é fazer deles pessoas de cabeça boa, felizes e que tornem este mundo melhor. O amor que sinto por eles e o que eles sentem por mim é uma coisa tão imensa que não consigo enxergar minha vida sem eles, sem acompanhá-los e tê-los como meus amigos. Sou muito grato por eles; já são homens autônomos, decidem seus atos e os caminhos de suas vidas de maneira independente.


Maria de Jesus da Silva Matos - 1944 - 2003 (foto tirada em 1962)


Em meados de 1970.


Essa foto foi tirada 3 anos antes da sua morte, possivelmente, em 1996...

Minha mãe morreu em 15/06/2003, com 59 anos. Deixou muitas saudades e não esclareceu muito bem toda essa história – ela sempre era evasiva quando se falava nisso –, o que me leva a crer que ela escondia alguma coisa e que toda minha família compartilha esse segredo e ninguém me conta o que realmente aconteceu. Sempre me pareceu que ela deveria ter um grande motivo para me esconder do meu pai. Existe algum detalhe que todos na época fizeram uma espécie de pacto para que eu não saiba a identidade do meu pai.

Pode até ser que este nome e “história” dele sejam uma tremenda pista falsa. Minha mãe era perita nisso. Ela sempre usou de evasivas, e tenho certeza de que alguns tios, já falecidos, esconderam alguma coisa sobre meu pai e seu fim. Todos enrolavam quando eu tentava obter alguma informação, pareciam ter combinado. Seja o que for, é uma grande mentira ou verdade escondida que eu acho que nunca vou saber.

Quero apenas conhecer, pelo menos, a identidade e a história, porque imagino que ele já deva ter falecido. Hoje, ele estaria com aproximadamente 90 anos. Não me importam os motivos que nos separaram (sei, posso descobrir que ele simplesmente não quis ou que talvez tenha se magoado com minha mãe e resolveu também não me ver mais). Quero apenas preencher uma peça que falta no quebra-cabeça da minha vida e, talvez quem sabe, ter mais alguém para amar e apresentar para os meus filhos, o avô deles – eles iam adorar, com certeza.

Se puder me ajudar nessa busca, qualquer informação, por mais boba que pareça, pode me ajudar a encontrá-lo. A única foto que tenho é de minha mãe na época em que eu nasci. Talvez quem a tenha conhecido possa lembrar do rosto, lembrar de algum detalhe e me ajudar com alguma informação. Só pelo fato de você ter lido este "jornal", já está energizando positivamente minha busca.

Obrigado!

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